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A luta pelo prazer solitário

Reprimida durante séculos, a masturbação é um dos pilares da autossuficiência feminina

Os dedos passeiam pelo corpo, dos seios ao íntimo, e provoca diversas sensações: calor por todos os músculos ou a sensação dos nervos gelando; a contração e o relaxamento; os espasmos e a pulsação.  E então, entre gritos, risos e gemidos, ele se aproxima: o ápice. E o alívio, a satisfação e a excitação permeiam a mulher. E, logo depois, o desespero.

Como assim a masturbação feminina ainda é tabu?

Por anos, a prática da masturbação feminina foi reprimida e, agora, ainda é pouco falada e explorada pelas mulheres. O autotoque feminino, a sexualidade e a imagem da mulher são vistas de forma negativa perante a cultura da sociedade contemporânea. Após a prática, segundo A pesquisa “Se Toca”, desenvolvida para esta reportagem em 2020, 18,43% das mulheres admitiram sentir vergonha após a masturbação, 15,25% culpa, 14,31% estranheza e, também, 13,06% consideram o ato como algo errado. 

 

A primeira experiência das mulheres com a masturbação começa, normalmente, durante a infância pela curiosidade, embora carregada de receio e repreensões. “Minha relação com a masturbação começou muito cedo, acho que eu tinha uns dez anos quando eu descobri que se eu tocasse em certos pontos da minha vagina, eu ia sentir uma sensação muito boa. Mas na minha família ninguém falava muito sobre isso, então eu achava que era errado” recorda Lara Silva, assistente de Recursos Humanos, 21. 

 

Sem conversas, quase todas as mulheres são repreendidas durante a infância e esse problema se estende até a vida adulta. Com isso, ocorre o atraso no sucesso e na satisfação da vida sexual da mulher já madura. Sérgio Werner Baumel, psicólogo, médico com especialização em neurocirurgia e sexólogo, explica de que forma a sexualidade feminina é reprimida “quando a criança começa a mexer na área genital, é repreendida e ainda ouve que é sujo o que faz, ela associa que a vagina e o clitóris são sujos. Ao ouvir que o ato é errado ou pecado, isso se instala no subconsciente. Há uma conjuntura grande de coisas contra a masturbação em si e contra a sexualidade feminina” explica. Além das diversas formações e especializações, Sérgio Baumel também desenvolveu um estudo sobre a masturbação na sexualidade feminina brasileira contemporânea.

Ainda hoje, a sociedade tem o costume de associar o ato de se masturbar com a solidão ou com o baixo sucesso em relacionamentos românticos. Vern Bullough afirma no artigo "Masturbation: a historical overview" que, na sociedade contemporânea, a menor causa que leva a masturbação seria a falta de um parceiro sexual e que aqueles que têm relações estáveis vivenciam a masturbação com um olhar mais positivo, do que pessoas que não tem um parceiro. Hoje em dia, se fala mais em masturbação, como uma prática sexual que vem complementar o vasto repertório sexual dos indivíduos. “A mulher quando se masturba menos, ela tem tendência a ter mais dificuldade em toda esfera sexual. Enquanto, a mulher que se masturba mais, tem mais facilidade que aquela mulher não aprende como é seu próprio corpo”, comenta Sérgio Baumel.

A médica ginecologista e colaboradora do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, Thais Machado Dias, complementa explicando que é muito mais fácil ensinar como outra pessoa te dar prazer, quando a mulher já desenvolve essa prática. “Uma mulher que sabe se dar prazer, ela pode ensinar um homem a dar prazer para ela. As mulheres têm essa ideia de ‘princesas Disney’ que vai chegar um um homem em um cavalo branco e que ele vai achar o clitóris e vai dar prazer… As mulheres são muito diferentes e os homens deviam chegar nesses momentos e falar ‘amada, não sou obrigado a adivinhar o que você gosta’. Então, é preciso que as mulheres consigam comunicar o que elas gostam. Mas como elas vão comunicar o que gostam se elas não sabem o que gostam? Para além de elas terem prazer com elas mesmas, qualquer mulher que se masturba, melhora a vida sexual a dois, seja com um parceiro ou com uma parceira”.

O psicanalista Wilhelm Stekel (1868-1940) teve um importante papel do ponto de vista da masturbação, em contraponto a outros psicanalistas, como Freud, que se opunham a ideia da auto estimulação. Stekel acreditava que a masturbação era algo benéfico e que haveria consequências negativas na sociedade se a masturbação fosse eliminada.  E Stekel estava certo. Segundo o psicólogo Sérgio Baumel a mastubação é um dos fatores que ajudam a diminuir os estresses do dia-a-dia, podendo auxiliar muitas pessoas a lidarem com o estresse durante o período de isolamento social, devido a pandemia do vírus Covid-19, e também, ajuda a lidar melhor com a aceitação do próprio corpo.

Algumas mulheres entrevistadas para a pesquisa “Se Toca” explicam como a autoestima interfere diretamente na forma como você sente prazer. “Hoje eu tenho uma relação muito boa com o meu corpo, mas eu já tive uma relação péssima e quando eu tinha essa relação, eu tinha vergonha de me tocar. Eu tinha vergonha de me olhar no espelho, eu tinha vergonha de mim mesma. Então, quando eu comecei a me aceitar, quando a minha autoestima começou a melhorar, eu senti uma mudança muito drástica. Eu me sinto muito mais à vontade, eu sinto muito mais prazer, e hoje a relação com meu corpo é muito boa e a masturbação influenciou muito no fortalecimento da minha autoestima” conta Lara Silva.

“Em um desenvolvimento saudável de aceitação com o próprio corpo a pessoa vai entender que o corpo dela é do jeito que é, é bom do jeito que é e que não precisa ter um padrão. A pessoa vai explorar o próprio corpo desde criança e principalmente ao chegar na adolescência e, assim, vai aprender como ter prazer. Quando isso é feito de maneira saudável, é extremamente importante para quando essas pessoas forem se relacionar com outras, ela consiga sentir e dar prazer. Quando não temos que lidar com toda a pressão social e cultural, a gente consegue ser o que deveríamos… saudáveis. Podemos gostar do próprio corpo, gostar do corpo do outro e gostar do contato. Tanto do próprio contato por meio da masturbação, quanto do contato do outro. Cuidar de si não é só fazer dieta, cuida de si é fazer carinho em si mesmo. Isso também é importante. Amar ao próximo como a si mesmo”, explica Baumel.

Masturbação e Religião: Bendita sois vós entre as mulheres

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“A mulher quando se masturba menos, ela tem tendência a ter mais dificuldade em toda esfera sexual”

Sérgio Baumel, psicólogo, médico com especialização em neurocirurgia e sexólogo

“Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. “Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito mulher”, dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto suas esposas murmuram com resignação: “Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade.” Simone de Beauvoir.

 

Segundo a psicóloga Vânia Cunha, em "A masturbação feminina: abordagem de um tabu"; quando se é iniciado o debate a respeito das formas como a religião prejudica diretamente o desenvolvimento da sexualidade feminina, a tradição judaico-cristã é o pilar da discussão, a partir do duplo padrão de moral sexual e a socialização repressiva das mulheres. Santo Agostinho baseava-se na crença de que todo o tipo de sexualidade não-procriativa era considerada um pecado. Imposições como a castidade e o sexo somente para procriação mostra a sobreposição do prazer masculino ao feminino, como coloca em discussão Simone de Beauvoir, na obra O segundo sexo (1949).

 

A ginecologista Thais Machado explica como a igreja católica, principalmente na Idade Média, constroi alguns conceitos que reduzem cada vez mais a autonomia da mulher, principalmente em relação a sexualidade. “As sociedades cristãs têm uma construção da negação do corpo e da negação dos prazeres. Quando se pensa nos sete pecados capitais, o que importa não é a vida na terra, é a vida no céu. Então, quando se tem essa negação da vida na terra e do concreto, e o que importa é chegar aos céus, eu tenho uma negação do corpo e eu tenho uma negação dos prazeres terrenos. Isso é muito mais amplo do que só sexo e atravessa profundamente o sexo e o sexo de todos, não só o feminino. Os homens também são muito reprimidos sexualmente, na igreja a masturbação também é pecado para os homens. Só que os homens estão em um lugar de poder em uma sociedade patriarcal, então as mulheres têm uma desvantagem muito grande. Já saímos da Idade Média, mas os homens se masturbam e as mulheres não.”

Ainda hoje há muitas mulheres que sequer experimentaram a sensação de um orgasmo. “Uma das formas de se libertarem da submissão do prazer do homem, é também se libertar dos exageros religiosos. Nas igrejas ainda se prega a ideia de que é pecado sentir prazer, principalmente para a mulher. Por isso, acredito que o atraso no desenvolvimento da sexualidade feminino pode estar ligado muitas vezes a religião, principalmente as religiões cristãs no Brasil”, comenta Sérgio Baumel.

 

Embora a masturbação já seja normalizada atualmente e seja vista como uma forma saudável de explorar o autoconhecimento, muitas religiões desencorajam o auto toque. Os pesquisadores Davidson, Moore e Ullstrup no estudo "Religiosity and Sexual Responsibility: Relationships of Choice" explicam que “as mulheres que relataram “sem religião”, e as liberais protestantes, masturbam-se com mais frequência, e experienciam mais frequentemente o orgasmo durante a masturbação, do que as mulheres protestantes conservadoras e as mulheres católicas”. Também segundo a pesquisa da Vânia Cunha, quanto maior o grau de religiosidade entre as mulheres, menos positiva é a sua reação quanto a autoestimulação e maior a probabilidade de sentimento de culpa.

Quem tem medo do autoconhecimento feminino?

Como principal órgão erógeno, o clitóris é responsável pelo orgasmo feminino para 70% das mulheres, segundo estudo divulgado na reportagem “Como a repressão à sexualidade feminina transformou a masturbação em tabu”. Este estudo também revela que apenas 30% das mulheres conseguem atingir o clímax por meio da penetração. 

 

Na época da Inquisição*, na Europa, o clitóris era símbolo de bruxaria. Já no Egito Antigo, era amputado como forma de evitar a infidelidade feminina. Em Portugal, em meados do século XVIII, os homens eram responsáveis pelo comportamento sexual de suas parceiras e se caso cometessem adultério, a mulher e o marido eram punidos. Durante a ditadura militar brasileira de 1964, mulheres foram vítimas de torturas relacionadas a mutilação da vulva. Consequências que faziam que as mulheres fossem prisioneiras e constantemente vigiadas em seus lares. “Isso gera traumas transgeracionais e reflete na falta de apropriação que as mulheres têm dos próprios corpos”, explica a ginecologista Thais Machado.

 

A mutilação da vulva acontece desde os tempos primórdios e foi uma das formas dos sistemas patriarcais controlarem a forma como as mulheres se relacionavam com os outros e com elas mesmas. “O sexo é feito para o prazer, só que o problema é que se a mulher puder ter o próprio prazer, ela também irá querer ter outras coisas. Se a mulher tem o direito de gostar de sexo, ela de repente vai querer ter sexo com outras pessoas, ou ela vai querer ter outras coisas além do sexo e isso vai contra o machismo”, reflete Sérgio Baumel.

Além disso, há uma questão muito mais complexa que é a relação da evolução da economia do mundo em conjunto ao desenvolvimento da sexualidade da mulher. O controle do sistema patriarcal iniciou simultaneamente com a evolução da ideia de patrimônio de terras. A partir dessa ideia, os homens não tinham somente os terrenos como posse, mas também as mulheres com as quais se relacionavam e com as quais possivelmente conceberiam seus herdeiros. Assim, inicia o conceito de propriedade, posse e herança. E a mulher se torna domínio do homem.

Porque a sexualidade da mulher é pauta secundária?

A repressão e controle da sexualidadeSe toca
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A masturbação e o patriarcadoSe Toca
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Capítulo 6

O próprio sistema capitalista criou mitos para que população desenvolvesse receios diante da masturbação. Assim, médicos e profissionais da área de psicologia reforçaram ideias contrárias à masturbação. “Os médicos do século XVIII afirmavam que a prática do auto-toque faria o rapaz ou a moça ficarem fracos, doentes e quem sabe morrer por conta disso. Até os tempos de hoje há resquícios dessas desinformações. Ainda dizem para o adolescente que ele, ao praticar a masturbação, irá desenvolver espinhas no rosto, ficará com pelo na mão e até mesmo acabar doente. Esse controle sob si mesmo é algo que o sistema não quer que a população tenha”, explica Sérgio Baumel.

Apenas no início do século XX, com o avanço da medicina e da ciência a respeito das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), é que a masturbação passa a ser alvo de interesse. “Não custa nada, não dá doença, não atrapalha ninguém, por que não fazer? A única coisa que nos impede de nos masturbar, são os nossos preconceitos”, conclui Baumel.

Capítulo 2