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A masturbação feminina nas artes: prazer ou tabu?

Da censura histórica aos feeds das redes sociais digitais, a arte reproduz a realidade e evidencia os gritos da mulher pela liberdade de expressão erótica

ESTE CONTEÚDO CONTÉM CENAS INADEQUADAS PARA MENORES DE 18 ANOS: a advertência é padrão para os objetos artísticos e culturais que apresentam cenas eróticas. O alerta serve para gatilhos, mas também instiga a imaginação e provoca certa curiosidade ao espectador que pode observar um desafio nas convenções sociais, como os presentes em cenas de nudez.
 

No vasto menu de produtos artísticos, são mínimos os produtos que abordam a busca da mulher pelo seu próprio prazer. Eles estão num imaginário que é reproduzido nas cenas de filmes, séries, pinturas e, até mesmo, nos perfis de redes sociais que promovem a discussão em torno do prazer feminino, mas que ainda sofrem com a censura. Apesar disso, a sociedade tem se transformado e a relação da mulher com a sua sexualidade tem ganhado cada vez mais espaço.
 

 

"Se toca": a (quase) desconstrução do auto prazer

O universo digital provocou mudanças no olhar da sociedade e da liberdade de expressão das mulheres sobre a masturbação feminina. Assim, o debate em torno do que a mulher pode, deve ou não realizar em seu próprio corpo ganhou destaque, situação que se difere dos tabus que eram associados a determinadas práticas sexuais em décadas e séculos anteriores.
 

O meio artístico está quebrando os tabus em torno da masturbação feminina, principalmente quando tal ruptura é destacada em produções cinematográficas do mundo do streaming, como em Fleabag, série original da Amazon Prime, que retrata a vida de uma jovem sexualmente voraz. Nessas circunstâncias, cenas em que uma jovem escritora se toca diante de uma janela escancarada de Nova Iorque ou de uma adolescente que tenta entender o que lhe dá mais prazer, se tornaram comuns entre consumidores e consumidoras do gênero ficcional New Adult.
 

Apesar da crescente presença da prática do autoprazer feminino nos filmes e seriados, “é ainda difícil encontrá-los nos acervos, isso torna inviável a análise do nível de problemas na autoestima e, até mesmo, nas relações sexuais que a produção pode promover”, explica Marcella Maretti, psicóloga do Instituto Paulista de Sexualidade (InPaSex).

“O problema é encontrar a representação da masturbação feminina nas obras de arte porque, se fosse masculina, conseguiríamos lembrar de mais filmes. Isso significa muita coisa, né?”

Marcella Maretti, psicóloga com aplicação em Sexologia pelo InPaSex

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A prática do autoprazer feminino, tanto quanto a sexualidade da mulher, sempre foi colocada em discurso de maneira abstrata e satirizada. Os estudos, museus, catálogos de filmes e bibliotecas apresentavam a temática de forma vulgar, considerando a prática ilegal se não atendesse aos desejos masculinos. Para Maretti, “o homem sempre foi mais incentivado a se masturbar e o ato mais naturalizado para eles; para a mulher, isso nunca aconteceu, sempre foi um tabu. A questão social está muito atrelada a isso, afinal, não se fala da sexualidade da mulher, mas a mulher é totalmente sexualizada nas obras de arte”.

Apesar dos avanços na liberdade corporal, as mulheres continuam sendo sexualmente limitadas. Essa limitação é proveniente do discurso patriarcal que continua a restringir práticas da sexualidade da mulher. Os homens veem a masturbação feminina como um show, “ela está atrelada a formação do prazer masculino e não a um momento específico da mulher”, diz Kenya Odara, advogada e integrante do coletivo Siriricas que naturaliza a abordagem de temas do universo feminino, como a sexualidade.

Na luta pela liberdade sexual, as mulheres intensificaram a sua sensualidade através de produtos artísticos. Mas de que modo a sexualidade feminina é colocada em discurso através das artes? E de que maneira essa arte é naturalizada?

Tela quente: a representatividade do prazer feminino

 

A sexualidade não é algo que está ancorado em um corpo que vive da mesma forma em todas as épocas e lugares, mas envolve processos culturais e plurais. Na arte ocidental, principalmente a partir do Renascimento, as representações do corpo nu feminino aumentaram, mas eram expostas e aprovadas desde que produzidas por homens. Ou seja, a arte visual foi totalmente destinada ao olhar erotizado masculino, mas “dentro desse cenário, que é extremamente machista, é importante que as mulheres tenham filmes, livros ou qualquer fenômeno artístico que retrate algo que é natural, como a intimidade feminina”, comenta a Luciana Borges, apresentadora do podcast “História de Mulheres” e jornalista especializada no feminino.
 

As pessoas acreditam que, num espaço artístico, quando existe a nudez é uma alusão ao ato sexual e isso não é verdade. “Se a sociedade parar de achar que o corpo nu está relacionado ao sexo, você começa a ver isso como arte e não como algo para promover o tesão”, explica Kenya. Essa visão está ligada, inclusive, ao conceito de pornografia que “é produzida por homens, com uma visão distorcida e que valoriza um ideal de sexo que, na realidade, não existe”, acrescenta a advogada.
 

Apesar da falta de familiaridade com a prática masturbatória nas telonas, o cinema e a TV refletiram esse movimento, mesmo que enfrentando muitas discussões para incluir tais cenas em suas produções. Um exemplo é O som ao redor, filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que teve uma cena de masturbação interpretada por Maeve Jinkings. O momento provocou uma identificação com o público feminino no Brasil, porque “quando você fala de temas tabus sem tensão, as pessoas naturalmente se sentem mais confortáveis para agir assim também”, disse a atriz em entrevista ao Uol.

Nessa constante mudança, as cenas que envolvem a sexualidade feminina se ampliaram, diversificaram e se realizaram. Os avanços tecnológicos e a inserção das mulheres em cargos de direção de produções artísticas projetaram um espaço de maior naturalidade das práticas masturbatórias femininas. “É importante o ponto de vista feminino nas produções e direções de longas porque representam melhor o prazer da mulher”, opina Débora Pimentel, publicitária e dona da página Cara de Fofa.

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Fleabag

Nesta série de comédia dramática, uma jovem busca se adaptar à vida moderna em Londres enquanto tenta lidar com uma tragédia recente. A personagem quebra uma quarta parede e nos leva para o seu subconsciente. Ali, são abordados diversos temas, principalmente os que envolvem a sua sexualidade.

Dir. Phoebe Waller-Bridge

2016 – 2019

Toque de política: feminismo promove mudanças no consumo de pornografia

Conhecida por ser nociva para a saúde e para a segurança de mulheres, por contribuir para a cultura do estupro e, também, por ser responsável pela construção de um imaginário sexual distante da realidade, a indústria pornográfica promove dubiedade nas discussões sobre o seu papel. “A pornografia vem para chocar, para incomodar, é algo próprio da linguagem dela”, afirma a psicóloga Marcella Maretti. Nos últimos tempos, o incômodo cresceu e as mulheres buscaram por alternativas para tirar o conceito machista dos produtos. Essa adaptação foi chamada de pornografia feminista. Apesar de ser voltada para o público feminino, esse novo modelo de pornô também divide opiniões.

Sem censura: o prazer na ponta dos dedos
 

As redes sociais possibilitam maior exposição de assuntos. Nos feeds, as publicações que tratam da variedade de corpos, sexualidade, saúde e práticas sexuais criam um espaço um pouco mais seguro para que outras mulheres conversem sobre esses temas, mas também traz responsabilidades sobre as artistas que cedem o espaço para a troca.

“Tem cena de sexo, mas tem cena de prazer feminino?”

Luciana Borges,apresentadora do podcast “História de Mulheres” e jornalista especializada no feminino

Capítulo 1

Pornografia feministaSe toca
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No Instagram, plataforma de compartilhamento de fotos e vídeos, ilustradoras como a paraense Tainá Maneschy e a brasiliense Débora Pimentel, dona do Cara de Fofa, expõem suas artes sensuais, sem tabus e atraem um grande público interessado no teor das publicações. “O tema começou a entrar nas minhas ilustrações depois da minha primeira relação sexual, aos 25 anos. Eu já gostava de fazer personagens femininas e passei a fazer essas personagens com os meus pensamentos sobre aquilo, com frases que eu queria mandar para os ‘contatinhos’ ou coisas que eu gostaria de ouvir”, conta Débora Pimentel. “Muitas seguidoras falam que mandam os desenhos para a mãe ou que acontece ao contrário, e é muito legal ver que estão começando a ter esse diálogo sobre sexualidade”, finaliza.

 

As obras que retratam maior liberdade sobre o corpo e o prazer feminino de Tainá Maneschy ganharam espaço na exposição Dezessete/Dezoito, no ano de 2019. Expostas em Lisboa (Portugal), São Paulo e Belém, ambos no Brasil, as obras foram um compilado de dois anos de pesquisa artística a respeito da perspectiva feminina do ato sexual.

 

De uma publicação nas redes sociais a um projeto direcionado para mulheres retratando temas comuns, como a vida sexual, sensualidade, desejos, fetiches e afins, nasceu o Siriricas. “Sentimos falta de ter um ambiente para falar sobre isso, porque a gente sabe que não é uma coisa comum para as mulheres”, pontua Kenya. “Conversa vai, conversa vem, vimos muitas questões semelhantes e pensamos ‘precisamos externar isso de alguma forma’, foi assim que surgiu o podcast Siriricas e, para divulgá-lo, a página no instagram também”.

Para Luciana Borges, o olhar de erotização será mudado de duas maneiras: “com a difusão do feminismo para as pessoas e, também, quando houver mais pluralidade de vozes dentro da produção pornográfica. Caso contrário, essa indústria continuará sendo reproduzida”. Assim, de forma mais descontraída e acessível, as artes provocam uma alteração na discussão sobre a masturbação feminina e promovem um novo olhar da mulher para o seu corpo e para o autoprazer, pois é a partir disso que as produções podem fugir do básico e, de fato, mostrar a intimidade e o prazer feminino.

Capítulo 3