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A masturbação é para todas? Como a etnia pode mudar a relação com o corpo

Religião a cor da pele influenciam se mulheres podem ou não se tocar

Se você pudesse dizer qual é o perfil da mulher que se masturba, qual seria a sua resposta? Ela teria uma altura específica? O tom de pele? Olhos mais puxados ou abertos? E o cabelo? Quais características ela teria? Talvez essas sejam perguntas que levem você a pensar, mesmo que de forma inconsciente, em um padrão específico de mulher: branca e curvilínea.
 

É importante entender como se dá essa construção, do ponto de vista social, do corpo da mulher ainda na infância. Por viver e evidenciar aspectos de uma sociedade patriarcal, elas já lidam ainda quando muito novas com os questionamentos acerca da sua sexualidade e como deve ser o comportamento adotado durante momentos de sua vida.
 

Um estudo divulgado pela Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, em 2017, mostrou que meninas brancas merecem – na concepção dos entrevistados – ser mais assistidas do que as negras, uma vez que as primeiras sabem menos sobre o sexo, a vida e são mais dependentes. Afinal, na concepção do grupo analisado pelo estudo, as negras já são mais fortes e conseguem lidar com a adultização com “mais facilidade”.
 

Entretanto, existem outros temas que precisam ser falados antes de chegarmos à masturbação. Segundo Gisele Faresin, CEO do projeto "O prazer é todo meu" que busca auxiliar mulheres a lidarem melhor com a sua sexualidade e o seu corpo, um deles é a autoestima das mulheres que a todo momento “é bombardeada por uma indústria milionária com padrões estéticos e de necessidades que não temos”. 
 

Gisele Faresin ressalta a importância da afetividade nesse processo de relacionamento com o corpo, e como o carinho, que vai para além da relação à dois, é fundamental. Entretanto, ela afirma que nem todas as mulheres vão ter tempo para trabalhar a sua sexualidade, afinal, muitas delas estão preocupadas com, acima de tudo, por exemplo, manter a sua família.

“A mulher é bombardeada por uma indústria milionária de padrões estéticos e necessidades que não temos”

Gisele Faresin, CEO do projeto “O prazer é todo meu”

Amanda Porto, fundadora do coletivo Siriricas, explicou que, além das questões estéticas, as mulheres negras vão ter mais dificuldade para conhecer os seus corpos, uma vez que elas são mais animalizadas.
 

Assim como as mulheres pretas citadas por Amanda Porto, as asiáticas também carregam fortemente resquícios de uma objetificação dos seus corpos. Segundo Patrícia Hill em Pensamento Feminista Negro: Conhecimento, consciência e a política do empoderamento (2019), mesmo que o racismo tenha se inserido posteriormente no meio pornográfico, ele é um dos meios que projeta e objetifica os corpos de mulheres negras e asiáticas. Assim, segundo a escritora, determinados corpos passam a ganhar um  rótulo: as mulheres negras, por exemplo, são mais “sensuais” e as asiáticas são vistas como fáceis de se torturar.
 

O coletivo Siriricas acolhe mulheres negras e abordam a masturbação de uma forma leve. A fundadora Amanda Porto destaca que embora seja um debate para todas as mulheres, aquelas que são retintas enfrentam ainda mais dificuldades: “Quanto mais escura a sua pele, mais dificuldades você vai ter, inclusive, para conhecer o seu corpo e entender que é digna de prazer. Se isso é um debate para mulheres no geral, imagine para as retintas que são animalizadas e colocadas nesse lugar de objeto sexual”.

Segundo ela, o desenrolar do conhecimento desse corpo pode ser mais demorado em comparação com mulheres que tem a pele mais clara.

 

Além da cor da pele, o padrão estético também está entre os motivos que levam mulheres a não querer falar a masturbação. Segundo Vania Cunha em “A masturbação feminina: abordagem de um tabu” (2012), o relacionamento das mulheres com o seu corpo por conta dos estereótipos pode ser influenciado de maneiras diferentes. As americanas-europeias, por exemplo, relataram ter mais dificuldades em aceitar o seu próprio biotipo, quando comparadas às afro-americanas. Isso porque as mulheres brancas entendiam que precisavam entrar, literalmente, em um padrão europeu.

Masturbação: corpo e famíliaSe toca
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Quem ajuda na construção desses estereótipos?

Presentes desde 1908, os filmes pornográficos têm grande participação na criação de estereótipos dos corpos das mulheres. Em uma busca rápida na internet pelas palavras “masturbação”, “mulher” e alguma etnia (como branca, negra ou asiática, por exemplo),  é possível se deparar com diferentes respostas para a pesquisa.

 

Enquanto para mulheres brancas e indígenas os resultados são sobre “como praticar a masturbação”, “melhores posições” ou “benefícios da mastubração”, as mulheres negras e amarelas estão relacionadas a inúmeros sites pornográficos. Os resultados dessas pesquisas mostram como o corpo de determinados grupos étnicos são vistos pela sociedade.

 

Para algumas pessoas, a pornografia é um tipo de espelho sobre como deve ser o relacionamento à dois, mas também a sós. No entanto, ali, as mulheres, além de serem retratadas como alvos de dominação, as negras e asiáticas carregam a ideia de que estão ali para servirem e a sua masturbação serve como um fetiche para o auto-toque masculino, excluindo qualquer possibilidade que ela tenha a sensação de tocar-se para autoconhecimento.

 

Já a mulher branca, dentre todas as etnias, é a que menos tem o seu corpo objetificado. Nas pesquisas de páginas iniciais, embora tenham link de pornografia, a grande maioria dos conteúdos vinculado às mulheres dessa etnia que  encontramos são tutoriais ou manuais para elas possam se conhecer sexualmente e os cuidados que se deve ter. As mulheres asiáticas e negras são vinculadas às páginas de conteúdo pornográfico voltado para homens.

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“A mulher vê aquilo (pornografia), não é igual a sua vulva e já entra em pânico”

Cinthia Cruz, psicóloga e criadora de conteúdo

Mais uma vez, se torna visível como os corpos, cada qual com a sua etnia, são estereotipados deixando de ser considerado o indivíduo e sim a sua cor/descendência em um tema de autoconhecimento. Assim, segundo o artigo da  Lara Paulo e Raisa Ribeiro, “Pornografia inter-racial: a dupla violência contra as mulheres negras” (2017), cria-se uma junção que faz com que se torne “interessante”, do ponto de comercial, vender a ideia de um estereótipo.
 

Contudo, a pornografia faz parte do envolvimento feminino com a masturbação. A psicóloga Cinthia Cruz, afirma que muitas mulheres têm como referência sexual a pornografia e que a masturbação tem que ser do jeito que está no filme. No entanto, o que é projetado nem sempre é a realidade. “A primeira coisa mais óbvia tem a ver com o corpo, aquelas vulvas construídas por cirurgiões plásticos, então, elas têm todo um formato idealizado. A mulher já olha aquilo e quando vê a sua pensa ‘a minha não é assim’ e entra em pânico. Tem meio que uma padronização”, aponta a psicóloga. Segundo Cinthia, o papel da pornografia causa uma pressão estética por um corpo e pela construção de uma relacão com a sexualidade deturpada da realidade. A psicóloga alerta que o problema também está relacionado a criação de um modelo para ser seguido. “Mesmo que a indústria pornográfica mude, ela ainda vai ser um modelo que as pessoas vão olhar e querer imitar”, considera.

Como a religiosidade pode interferir na relação com a masturbação?

Assim como a objetificação do corpo da mulher, a religião é outro ponto chave para a construção dessa relação. Segundo o estudo “Educação sexual familiar e religiosidade nas concepções sobre masturbação de jovens evangélicos”, de Patrícia Pereira, ao longo da vida, mulheres criam bloqueios para poder conhecer o seu próprio corpo e a religião tem uma importante função na construção dessas barreiras.

Entre os perfis étnicos-raciais, segundo estudo de Cunha, mulheres afro-americanas são as mais influenciadas por questões religiosas, justamente por ser algo considerado um pecado por determinadas crenças das quais elas compartilham.

 

Crescer em uma família religiosa pode acarretar em algumas dificuldades na relação com a masturbação.  Ana Julia*, advogada, contou que, por vir de uma família com fortes crenças, esse tema não era abordado: “minha relação com meu corpo sempre foi de muito tabu. Cresci numa família bem tradicional e religiosa, na qual questões como orientação sexual, identidade de gênero, nudez, sexo e masturbação eram assuntos velados”.

 

Assim como a  Ana Julia*, uma das fontes que chamaremos de Juliana (pois ela prefere não ser identificada) contou que, na adolescência, tinha vergonha de falar sobre masturbação: “como nasci em meio cristão, e nessa religião masturbação é considerada pecado ou errada aos olhos de Deus, me sentia culpada, ou como se estivesse cometendo um crime absurdo. Já ouvi meus pais dizerem ‘não faça isso se não quiser ir para o inferno’. É complicado esse posicionamento dos pais cristãos porque acaba desencadeando uma certa "vontade" em tais práticas sem informações”.

Masturbação: etnia, religião e classe socialSe toca
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“Masturbação vai ser a última coisa sobre a qual uma mulher negra vai querer falar"

Amanda Porto, fundadora do Siriricas

“Já ouvi meus pais dizerem: 'não faça isso se não quiser ir para o inferno'"

Maria Clara, participante do formulário "Se Toca"

A masturbação está disponível para todas, mas nem todas estão à disposição da masturbação

A masturbação é acessível para todas as mulheres, no entanto, nem todas estão com tempo para se masturbar. É importante frisar que algumas mulheres têm outras prioridades, por exemplo, se alimentar e manter a sua família, consequentemente elas não têm tempo para pensar na sua sexualidade e se masturbar, afinal as suas preocupações são outras, segundo fundadoras de projetos que visam a relação do corpo feminino.

 

Amanda Porto ressalta o papel de mulheres negras, por exemplo, na história que, segundo ela, “quando rolou o movimento das sufragistas, elas só estavam lá lutando pelos seus direitos, direito ao voto, por poder trabalhar e afins, porque tinham mulheres negras cuidando das suas famílias”. A fundadora do Siriricas destaca que em determinadas situações as mulheres negras buscam pelo seu reconhecimento enquanto cidadã e, por isso, muitas vezes a sua sexualidade fica em segundo plano.

De acordo com Amanda Porto, essas mulheres têm outras demandas na vida para que sejam resolvidas. Ela afirma que debates sobre pêlos ou masturbação serão as últimas coisas que uma mulher negra vai querer falar.

 

No curso “O prazer é todo meu”, Gisele Faresin aponta que, apesar da etnia não ser uma das perguntas preponderantes nas inscrições, se torna perceptível a presença majoritária de mulheres brancas. “Eu sei que existe uma parcela gigantesca da população brasileira que jamais vai conseguir consumir o meu conteúdo. Eu tenho essa consciência. Ou talvez ela nem consiga entrar na faculdade, porque ela teve três filhos antes dos vinte anos, porque na cultura em que ela está inserida isso é natural”, explicou a CEO.

 

Gisele Faresin aponta que é preciso entender que mulheres vivenciam realidades diferentes e isso deve ser levado em consideração ao falar sobre sexualidade.

Contudo, mulheres estão se adaptando a uma nova vida e conhecendo mulheres com quem podem conversar sobre o assunto. E, por mais que cada uma enfrente uma realidade diferente, projetos como o Siriricas, A verdade nua e crua ou O prazer é todo meu podem oferecer um pouco desse diálogo para que essas mulheres se sintam mais livres para falar sobre masturbação.

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