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Conga la Conga: os desafios da sexualidade e a masturbação das mulheres maduras

A menopausa não é o fim, apenas o começo de um novo momento

A velhice é um fase da vida na qual muitos esperam e outros buscam evitar, mas o fato é que dela não é possível fugir. O ano é 2020, uma pandemia histórica atinge o mundo, exigindo, além de medidas de higiene, o distanciamento social. Este isolamento, que muitos fazem em casal, outros em família e outros sozinhos, faz com que muitas pessoas repensem conceitos sobre as práticas mais simples como cozinhar, comer, limpar e gozar. Tal gozo pode ser significado e praticado de diversas formas, mas quando se imagina um indivíduo que goza, em quem a mente pensa? Um homem? Jovem? Viril? Por que não mulher? Por que não madura? Por que não idosa?

Essa série de reflexões exigem questionar o porquê de as pessoas não vincularem o gozo à mulher e, principalmente, à mulher madura ou idosa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Estatuto do Idoso consideram idosa uma pessoa acima de 60 anos. Em um país como o Brasil, onde a expectativa de vida de uma mulher é de 79 anos, como essas mulheres que passaram do que se considera “ápice da vida”, vivem, sentem e gozam?

 

Christina tem  57 anos, é espontânea e muito aberta a entender os processos do seu corpo. Já em adaptação quanto ao que se é conhecido como menopausa, período pós-climatério, relacionado  a interrupção da fertilidade e consequentemente da menstruação, ela relata que de repente tudo mudou quanto a sua sexualidade. “Toda mulher precisa ter o seu momento, pegar uma taça de vinho, tomar um banho e relaxar. Eu usava a masturbação, há uns anos, como forma de relaxamento. Agora que eu entrei na menopausa, eu não faço mais isso e isso me faz muita falta. Não tem tesão, o seu tesão está passeando, se foi”, afirma. Embora Chris, como prefere ser chamada, esteja se adaptando a toda essa mudança, ela se mostra muito firme e se expõe de forma bastante descontraída.

 

A menopausa é um fator inevitável na vida da mulher e marca o declínio hormonal que consequentemente afeta o corpo de várias maneiras. “Todas passarão por esse momento. Muitas mulheres queixam-se, pois há um declínio hormonal, em especial do estrogênio – importante hormônio sexual feminino. Com isso, ocorrem vários sintomas que podem afetar a sexualidade da mulher”, explica Angela Henrique, enfermeira e coordenadora da Oficina de Sexualidade em Idosos no Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

 

Embora o período de menopausa se inicie por volta dos 50 anos, nem todas as mulheres, de fato, vivenciam tal declínio hormonal nessa faixa etária. Sonia Rubão, tem 55 anos e ainda não entrou na menopausa. Solteira e decidida, Sonia tem uma vida sexual ativa e busca sempre enfatizar como o gozo é um fator importante para o seu bem-estar.“Eu acredito no sexo como uma parte importante da vida das pessoas. Nesse sentido, a masturbação é um complemento não só do sexo, mas também da rotina e do temperamento das mulheres”, afirma.

 

Ao contrário das vivências de Sonia, Maria, cujo nome para esta reportagem é fictício, uma vez que a entrevistada prefere não se identificar,  tem 63 anos e explica que depois da morte de seu marido não se sente confortável para sentir prazer sozinha ou arrumar outro parceiro. “Ele se foi de uma maneira bem triste. Eu sou religiosa e acredito que o sexo seja para multiplicação. Claro que houve momentos na vida onde a carne falou mais alto. Mas hoje, depois de tudo isso, eu prefiro não tocar no assunto ou pensar nisso”, explica meio sem graça a fiel da Congregação.

 

Lilian tem 45 anos, é analista fiscal e mãe solteira e nos explica também como a religião pode interferir na relação da mulher com seu corpo. “A questão religiosa sempre interfere. No meu caso interferiu muito, principalmente nessa fase de transição entre a infância e a adolescência, já que minha mãe era e ainda é católica. A religião sempre trata isso como impuro e pecado. Tiveram essas questões comigo e eu ainda não tinha quebrado essa barreira quanto a me tocar. Depois dos 14, quando comecei a namorar, aí perdi a vergonha e essa coisa puritana. Mas acredito que a religião interfira sim”, conclui.

“O ato sexual normal põe com efeito a mulher na dependência do macho e da espécie. Ele — como entre quase todos os animais — é que desempenha o papel agressivo, ao passo que ela suporta o amplexo*”

Simone Beauvoir, 1949, O Segundo Sexo, p 111
Amplexo: forma de cópula comum no reino anima*

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Embora os depoimentos de Maria e Lilian possam levar a pensar na religião como fator impeditivo, um levantamento feito para esta reportagem,  que contou com a participação de mais de 50 mulheres  acima dos 40 anos, de diferentes idades e regiões do Brasil, apontou que apenas 34% delas acredita na religião como barreira ou formadora de uma ótica que delibera sobre o corpo da mulher. Porém, 94% dessas mulheres acreditam que a masturbação como forma de autoconhecimento e saúde ainda é invizibilizada pela sociedade.

Percebe-se que o declínio hormonal, não é um fator determinante para o fim ou esquecimento da vida sexual das mulheres mais maduras. Todo impedimento quanto ao orgasmo e ao gozo se deve a vários fatores que, na maioria das vezes, não são necessariamente hormonais e sim uma soma de experiências de vida que formaram uma inibição quanto a sexualidade. “As mulheres idosas de hoje viveram um geração passada onde a sexualidade não era aberta e discutida como nos tempos atuais. Eram épocas de muita repressão, estigma e preconceito. A mulher era estimulada a procriar e dar prazer ao marido. Não podia, e era até pecado para algumas, expressar seus desejos sexuais ao companheiro, falar com a mãe ou amigos, então,  impossível!”, explica Angela. Ela complementa sobre relatos de algumas vivências em seus atendimentos: “Muitas pacientes, em meus atendimentos no consultório, diziam que não podiam gemer, pois era considerada atitude de mulher da vida, não podia sequer usar a cor vermelha, que o marido a agredia”.

 

Embora a menopausa afete muito a sexualidade das mulheres, Chris explica que não é o fim, mas sim o começo de uma nova fase. “Eu percebo que muitas mulheres têm vergonha de falar, porque a impressão que dá é que por ser o fim do ciclo, seja o também o fim da vida sexual da mulher. Antes era aquela euforia e agora você precisa de paliativos”, considera.

 

Os momentos de prazer e a autonomia do corpo são coisas que quando tiradas da vida de alguém, no caso das mulheres, podem desencadear diversos fatores que afetam o bem-estar físico e mental. “Se formos olhar a definição de orgasmo, o entenderemos como um momento em que o prazer da excitação sexual atinge o máximo de intensidade, sendo esse clímax, uma sensação de prazer dado a um estímulo sexual, já poderíamos dizer que a função é dar prazer. Mas na idade avançada não é tão simples assim. Há um iceberg de emoções e vivências da mulher idosa que requer avaliação de vários fatores, entre eles: relacionamento, conhecimento do seu próprio corpo, cultura, religião e até mesmo enfermidades que podem interferir direta ou indiretamente no alcance do orgasmo”, explica Angela.

 

Sérgio Baumel, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, em seu artigo Investigando O Papel Da Masturbação Na Sexualidade Da Mulher, publicado em 2014, analisa que as mulheres, principalmente as que hoje são mais velhas, muitas vezes entram em um processo de autoculpa quanto a tomarem a liberdade de explorar seus próprios corpos sem a necessidade de um homem. “Se para a mulher já é mais difícil ao longo da vida, ao passo que se envelhece, fica mais difícil ainda. É natural uma diminuição no desejo e dificuldades com a masturbação, logo, uma mulher que teve sua sexualidade reprimida a vida toda, fica pior ainda. O período pós-climatério, ou menopausa, além de marcar a queda expressiva de hormônios como a testosterona e o estrogênio, ainda modifica fisicamente a anatomia da  vagina, a atrofiando e expelindo menos lubrificação. Muitas vezes aquilo que era prazeroso, deixa de ser. As mulheres mais velhas foram ensinadas que sexo se faz com parceiro, então se hoje elas estão viúvas ou separadas, automaticamente muitas deixam de buscar o prazer. Quando elas eventualmente tentam se tocar, devido a menopausa, a sensação não é tão boa”, afirma Baumel.

Menopausa:

o fim e

um novo começo

INFORMAÇÕES ÚTEIS SOBRE A MENOPAUSA

fonte: BMJ Best Practice - Menopausa

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O declínio hormonal obriga muitas mulheres a suprir essa deficiência de forma artificial. As maiores causas dessas buscas são justamente a perda de libido e lubrificação. Esses fatores podem gerar desconforto e até dor, principalmente para mulheres que não costumam se tocar de maneira a conhecer seus pontos orgásticos. “Medidas paliativas são, em primeiro lugar, procurar um médico ginecologista para avaliar a situação, pois a menopausa vem para todas. Mas cabe a cultura e ao estado de saúde físico e emocional de cada mulher para ter uma sexualidade plena. Pode-se associar também a essas medidas: exercícios físicos, alimentação saudável, terapia psicológica com algum profissional, além de terapia hormonal, sob avaliação médica”, adiciona Angela.

 

Ainda sobre o tema, Chris relata as mudanças que aconteceram em seu corpo nessa nova fase, em forma de desabafo. “Eu tenho que me preparar dois ou três dias antes. Hoje eu tomo hormônio para levantar a libido e passo testosterona no braço para poder dar uma levantada. Isso é triste! A mulher se prepara para a primeira menstruação, se prepara para a juventude, onde muitas vezes é coibida, mas ninguém prepara a mulher para a menopausa”.

 

O desconforto do momento sexual, seja na estimulação do prazer a dois ou sozinha, tem um nome e Angela explica o porquê disso acontecer. “Esse é um processo que pode causar Dispareunia, dor durante a relação sexual, ressecamento vaginal, estresse, oscilação de humor e, tudo isso, afetar o relacionamento”. Toda essa situação pode ocasionar, no caso dos casais, diversas crises, principalmente se não houver a compreensão sobre as necessidades e mudanças do momento. Chris explica que existiu um estranhamento de seu parceiro, principalmente no começo. “O que era todo o dia, agora é uma ou duas vezes na semana, talvez menos. É necessário se adaptar e ter compreensão. Eu reparo que muitas mulheres e amigas minhas, inclusive, também se separam na casa dos 50. Hoje eu penso que um dos motivos seja justamente a menopausa”.

 

Angela explica sobre a importância da conversa entre os casais e quais seriam soluções possíveis: “Nesse momento, o ideal é conversar com o casal, saber o que agrada em um e desagrada no outro e traçar uma linha de tratamento e orientação, que muitas vezes é solucionado com psicoterapias, sem uso de medicações”.

Capítulo 3

Cinthia Cruz é a psicóloga a frente do projeto Nuas e Cruas, onde levanta discussões sobre sexualidade e as relações com o corpo. Em conversa para esta reportagem a psicóloga, que além de especialista também é mulher, trouxe temas dentro do âmbito da sexualidade que trata da não apenas da questão racial na visualização da sexualidade da mulher, como também a questão da velhice. “Eu acredito que a sociedade entende que um corpo só tem direito ao prazer se ele estiver no auge, bonito e chamativo. Alguém de 30 anos, ainda tem um corpo visto como bacana, então é associado ao direito de ter prazer.  A partir dos 40 anos,  já começa o mais ou menos”, afirma. É importante observar que a mulher madura contemporânea, não tem a mesma vivência de alguém de mesma idade nos anos 70, por exemplo, mas isso não a exclui de passar por esse processo invisibilizador dentro da temática da sexualidade. “Antigamente, uma mulher de 40 anos já tinha 3 filhos criados, casa própria, um emprego, talvez. Então eu acredito que existia uma ideia do sexo para procriação e não para o prazer, porque depois que se tinha os filhos a sexualidade se tornava algo sem propósito, segundo esse pensamento”, explica Cinthia.

 

A mulher madura enfrenta, sobretudo, o desafio de ser mulher e idosa em uma sociedade que valoriza como padrão de beleza a juventude e o masculino, na mesma medida que despreza o contrário. “A mulher idosa, antes de mais nada, é mulher. Essa mesma tem desejos, vontades, medos e direitos que devem ser ouvidos de maneira acolhedora, respeitosa e atenciosa. Na minha opinião, essa mulher deve procurar um profissional da saúde capacitado na temática e explanar as suas queixas e dúvidas sobre a sua sexualidade. Infelizmente o que temos hoje são profissionais que não dão abertura para esse tipo de comunicação, mas acredito que esse modelo de atendimento mudará em breve. Em segundo, a mulher idosa deve se posicionar como ela se sentir melhor. Não existe o certo ou errado, ainda mais na sexualidade. O que existe é você estar bem consigo mesma”, conclui Angela.

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