Capítulo 5- capa.png

Mas afinal, o que é educação sexual?

Como a educação sexual auxilia na liberdade íntima e na autonomia feminina

“Nós não tivemos a disciplina de educação sexual na escola. Claro que alguns professores falavam por cima, né!? Mas nunca foi algo disposto pela escola ou colocado na grade curricular. E na minha casa eu não obtinha muita informação, o que aprendi foi pela escola e nem foi uma questão de professor e aluno, mas entre os próprios alunos”. A estudante de química Amanda Gonçalves relata uma das realidades mais recorrentes da vida de uma mulher: a falta de instrução sobre sexualidade. Mas afinal, o que é educação sexual?

 

Por muito tempo foi (e ainda é) falado em educação para a sexualidade como um assunto polêmico, principalmente no campo social e político. Isso porque, muitas vezes, o assunto é tratado como apenas uma incitação ao ato sexual propriamente dito, sendo visto como algo errado, principalmente quando relacionado ao público feminino. Segundo a ONU, a educação sobre sexualidade tem como objetivo fazer com que “os jovens desenvolvam os conhecimentos e habilidades para fazerem escolhas conscientes, saudáveis e seguras sobre relacionamentos e sexualidade”.


Nesse ponto é necessário primeiramente distinguir o que é sexo e sexualidade. A psicóloga clínica pós-graduada em Terapia Sexual, Paula Napolitano, explica essas diferenças. Enquanto o primeiro tema é concentrado no ato em si, o segundo aborda algo mais amplo, pois também se discute “auto estima, respeito ao próprio corpo e ao corpo do outro, autoconhecimento, sentimentos, relações e, inclusive, como aprender a dizer não”, pontua. Napolitano ainda comenta que o último vai além de apenas situações relacionadas a momentos sexuais, mas trata da vida pessoal como um todo.

O que é sexualidade?

Além do ato sexual, a sexualidade trabalha com diversas áreas que compõem a vida pessoal da mulher.

Captura de Tela 2020-11-25 às 12.51.28.

1/3

A estudante de psicologia Suzanne Reis conta que, em casa, o tema da educação sexual começou a ser abordado apenas quando começou a namorar, aos 17 anos,  e que na escola o assunto não foi muito trabalhado também. “Eu lembro que o tema da educação sexual era mais focado nessa parte da biologia. Eu lembro de algum projeto em que ensinaram como colocar camisinha, mas não muito aprofundado”. Ela narra também como a falta da abordagem da sexualidade afetou a sua vida pessoal depois da adolescência, principalmente nos momentos em que se sentia desconfortável em fazer algo. “Eu não conseguia dizer: eu não quero fazer isso. Eu não tinha essa autonomia de dizer que eu não ia fazer, porque eu achava que eu ia decepcionar a pessoa”, relembra.

 

Ao comentar os modos de compartilhar as informações relacionadas ao universo da educação sexual, Napolitano explica que quando o assunto é tratado com o público infantil “o foco é apenas na sexualidade, trabalhando com a prevenção ao abuso sexual”, ao mostrar a esse indivíduo que o seu corpo é apenas seu. Enquanto na fase da adolescência, a abordagem é direcionada a sexo e sexualidade, já que na vida adulta todas essas questões estarão unidas.

Por meio da educação sexual, consegue-se desenvolver a compreensão de que qualquer desrespeito ao corpo é extremamente grave e não deve ser aceito, em qualquer fase da vida. Também é mostrado que a auto descoberta não precisa ser reprimida, mas incentivada para promover a liberdade corporal e garantir uma visão mais ampla sobre os dilemas que cercam o tema. 

 

Mas, se a educação para a sexualidade consegue contribuir na diminuição de casos de vulnerabilidade feminina, na promoção da autonomia da mulher, de seu prazer e saúde íntima, por que a conversa sobre o assunto ainda é tão restrita?

 

A psicóloga explica que essa discussão com o público feminino é mais complicada, pois, desde pequena, a menina é reprimida, enquanto a sexualidade masculina é super estimulada. Isso porque temos uma construção de gênero muito diferente em que “as meninas crescem achando que a sexualidade é algo errado, que é feio e sujo. E com os meninos há até um incentivo, e acabamos naturalizando essas situações”, considera. 

 

Percebe-se que desde cedo há uma censura sobre os assuntos que envolvem a sexualidade com as meninas, com isso são geradas lacunas de informações, fazendo com que essa criança ou adolescente não tenha os conhecimentos necessários ao passar por acontecimentos naturais de sua vida, como a primeira menstruação, ou ter uma base sobre assuntos de saúde íntima. 

A técnica em moda, Raphaela Rissoli critica a educação sexual que teve em sua infância, revelando que, assim como para muitas pessoas, o assunto foi resumido a apenas uma aula de como se colocar uma camisinha. “Ninguém te explica o que deve ser feito e se fosse voltado para a mulher, com certeza falariam de menstruação, que a cólica vem todo mês e é forte, falariam sobre medicação e que ela vai começar a ovular, entre outros assuntos”. A sexualidade, então, pode ser considerada um tema de saúde pública.

E se eu tivesse educação sexual antes? O que mudaria?

“Eu não perguntava nada para minha mãe quando era criança, porque eu não sentia que tinha espaço para isso. Então eu não perguntava e ela também não tocava no assunto”

Lembra Raphaela Rissoli

“Eu teria tudo. Tudo teria mudado. Eu acho que não só em relação a educação sexual na escola, mas em ter essa conversa com os meus pais. Teria diminuído muitos problemas que eu tive na vida, de coisas que eu fiz e que eu me arrependi muito tempo depois”, revela a estudante de psicologia, Suzanne. 

 

Quando a educação sexual ganha espaço e é tratado com importância diante de crianças e adolescentes, é possível fazer com que se sintam mais abertos a contarem quando algo acontecer. Mas e quando essa instrução não acontece? Como isso pode interferir na fase adulta?


A designer de moda Izabele Beatriz relata que quando ainda era pequena sofria constantes assédios, o que gerou problemas em sua auto imagem, pois tentava se esconder de tudo e de todos e chegou até mesmo a desenvolver problemas alimentares. “Eu pensava que se as pessoas estivessem me olhando era porque havia algo de errado com meu corpo. Isso veio da minha infância e eu carreguei essa situação por muitos anos”, conta.

Paula Napolitano explica que, muitas vezes, nem mesmo os pais ou educadores sabem o que falar sobre o assunto, uma vez que eles próprios não aprenderam sobre ele. A psicóloga sugere que uma saída para isso seria uma educação sexual para esses educadores e para pais, para que assim também tivessem informações sobre o assunto e conseguissem passá-las a diante. Por conta dessa carência de informações, as mulheres muitas vezes acabam cometendo alguns erros na adolescência, que podem impactar por toda sua vida adulta, como infecções sexualmente transmissíveis (IST) e até mesmo gravidez na adolescência. 

 

Raphaela argumenta que as crianças e adolescentes deveriam ter um pouco mais de conhecimento, para que assim tenham mais cuidado ao iniciarem sua vida sexual. Completando que por não terem essa base em relação às questões de sexualidade muitas meninas “não sabem nem o que é um preservativo, que serve para ajudar a prevenir a gravidez e doenças. Daqui a pouco estão com alguma doença ou grávidas, isso porque ninguém ensinou”.

A orientação sobre os riscos que podem ser encontrados durante a vida pessoal e o incentivo ao autoconhecimento também fazem parte da educação sexual. Se conhecer é o primeiro passo para conseguir conquistar a liberdade íntima e pessoal.  Porém, a grande cautela sobre o tema traz certas dificuldades para as mulheres adultas que costumam não refletir tanto sobre a importância de sua autonomia diante do próprio corpo, na busca pelo prazer sexual.

Dá para aprender com a pornografia?

“De novo aparecem as questões de relação de gênero e tudo mais. Porque a pornografia ainda é majoritariamente feita por homens e para os homens. Então, a mulher ainda é muito objetificada na pornografia”, considera a psicóloga Paula Napolitano. 

 

A instrução da educação sexual feminina, não se limita apenas às crianças e adolescentes, já que também se faz presente quando se trata de prazer erótico da mulher adulta. Mas quando não se teve a devida orientação sexual e quando o desejo sexual de fato surgir, a pornografia é uma boa saída?

 

Napolitano comenta que na pornografia o corpo da mulher é objetificado e que está ali muitas vezes para um prazer de um homem, tendo diversos mitos e tabus inseridos na reprodução da pornografia, que vão “desde tamanho do pênis que não é um tamanho comum, o tempo da relação sexual ou a facilidade que é a penetração. Como se a penetração fosse o objetivo único e primordial”.

Suzanne desenvolve dois pensamentos sobre a questão: o primeiro é sobre como ainda existe preconceito quando o consumo de conteúdo erótico é feito por mulheres. “Quando você pergunta para uma mulher se ela assiste é tipo: Não, credo! Nunca”, pontua. Segundo dados levantados pelo Pornhub em 2019, as mulheres brasileiras foram responsáveis por 39% do consumo de pornografia, sendo um dos países em que a mulher mais consome o conteúdo. 

 

O segundo é sobre o modo como a mulher é tratada nas produções. “Houve uma fase que achava interessante consumir, mas por causa da relação horrível que é, não fazia sentido criticar as condições em que eram gravadas e consumir depois”. Nesse ponto, Paula diz que esse é um cenário que vê uma possibilidade de mudança no futuro, com mulheres fazendo filmes para mulheres, mas que o prazer visto na mulher em filmes pornôs ainda não condiz com o que realmente acontece.

 

Napolitano explica que, em suma, a pornografia acaba trazendo mais tabus e desinformação do que uma educação sexual propriamente dita. Explana como a questão da ejaculação feminina ou o gemido da mulher são subjetivos e associados ao prazer, quando na realidade não são. Ela ainda critica o modo como o prazer é subexplorado no corpo e como o clitóris é deixado de lado: “muitas vezes na pornografia a masturbação é só um negocinho rapidinho, sendo que o clitóris é o orgão mais poderoso em dar prazer para mulher”.

“Pelo jeito como eles colocam o homem tratando a mulher na pornografia fica muito gritante a  violência que está acontecendo alí”

Izabele Beatriz, designer de moda

Orgasmo e masturbação… e a culpa?

A pesquisa ProSex realizada em 2016 pela Universidade de São Paulo (USP), informa  que 55,6%  das mulheres brasileiras nunca tiveram orgasmos. Paula conta que a maioria das mulheres que atende em seu consultório na realidade já teve um orgasmo, mas elas apenas não sabem. A profissional esclarece que isso pode ocorrer “por sempre estarmos olhando para o externo ou para o outro, nos esquecemos de nós mesmas. Sendo que nós deveríamos ser as melhores conhecedores do nosso corpo”.

Então, como saber o que é um orgasmo? Napolitano define o orgasmo como o pico máximo de prazer, sendo comandado pela mente. Quando ele acontece há uma rápida contração de toda musculatura pélvica e por  alguns segundos “um momento de desligamento, momento de uma entrega total, uma leve perda de controle e uma sensação de prazer”. Essa sensação é distinta para cada momento e cada pessoa, tendo inclusive diferentes tipos de intensidade. “Tem o orgasminho, o orgasmédio, o orgasmão, varia com a relação que você está tendo, com a quantidade de estímulos, com quanto o seu desejo está cheio” explica. Ela enfatiza que apesar de algumas pessoas acharem que só é possível ter um orgamo a partir da penetração, são várias as possibilidades de obtê-lo, sendo uma delas a masturbação.
 

“Eu me sentia mal. Eu sentia que eu não tinha espaço para esse tipo de coisa. Eu tinha medo de fazer qualquer coisa relacionada a isso. Quando eu fui começar a praticar isso do auto toque eu tinha um pouco de…acho que a palavra que se encaixa nisso é asco. Porque eu achava errado, sabe? Tudo o que eu já tinha visto sobre isso retratava como uma coisa suja. E com o tempo eu fui desconstruindo essas raízes ques estavam dentro de mim” desabafa Raphaela Rissoli. 

Por ser alvo de repressão para muitas mulheres, com a ideia da masturbação foi criado também um medo e é até mesmo um sentimento que associa o ato a algo sujo. Paula  relata que muitas de suas pacientes usam a terapia como uma forma de ressignificação de crenças, em que ocorre uma tentativa de desconstrução de vários mitos, tabus e preconceitos sobre a masturbação. 

 

Suzanne reflete sobre essa questão da construção histórica sobre a masturbação e lembra que, por muito tempo, achava que não era possível uma mulher ter prazer e que o sexo era apenas para reprodução. “Mas descobriram que mulher tem desejo sexual sim e é aquela coisa de esconder, sabe? Você até pode fazer isso, mas tem que ficar quieta”, considera.

Com esse pensamento, a terapeuta observa que muitas vezes a mulher “acaba esperando que o outro dê prazer a ela, quando nem ela mesma sabe como sente prazer”. Então deve-se pensar: como a mulher irá descobrir as formas que o seu corpo reage aos toques ou melhor jeito de se atingir o orgasmo, se não é incentivada a uma exploração corporal? 

 

Antes de tudo, é necessário quebrar essa ligação de masturbação feminina com algo culposo, já que o ato apenas promove benefícios, tanto por conta da liberação de hormônios, como a dopamina e endorfina, que, quando liberados, são responsáveis pelo humor e a sensação de prazer, até a promoção da auto estima, autoconhecimento e saúde íntima da mulher, ajudando inclusive no orgasmo. 

“Quando você está sozinha não faz sentido não acontecer, você está ali para isso. Você começa e você tem o seu tempo, você sabe exatamente como fazer da melhor maneira, mais rápida e mais funcional possível”, comenta Suzanne sobre a masturbação.

Não sinto vontade... e agora?

Napolitano explica que por conta da desvalorização do prazer feminino, as mulheres muitas vezes acabam deixando o prazer em último plano, fazendo com que não haja uma conexão com a própria libido. Alerta que muitas vezes é necessário investigar outros setores da vida que podem estar influenciando na falta de vontade sexual, pois como argumenta “tudo pode  interferir na sexualidade”. A profissional comenta também as diferenças de desejo responsivo e espontâneo. O primeiro é  aquele desejo em que a pessoa não está com vontade a priori, mas, a partir de um pensamento ou estímulo, o toque é iniciado e o corpo acaba respondendo a esse  estímulo. Enquanto o segundo seria aquele que deveria estar 100% presente antes mesmo do início do ato. Paula declara que “não é o desejo espontâneo que rege nossa vida e sim o desejo responsivo”. 

 

O desejo responsivo é o que comanda a excitação. É necessário entender que precisamos ter disponibilidade para o corpo “é preciso se olhar e se tocar para se dar prazer”, afirma Napolitano. A terapeuta menciona que esse momento pode começar em um banho, por exemplo. Já que “é no banho que temos contato maior com o corpo, mas ele acaba sendo automatizado”. E afirma que não basta apenas tocar, é preciso sentir, dedicar um momento para si mesma com o seu corpo “temos que despertar e cuidar esse corpo e às vezes não precisa ser algo erótico. Passar um creme no meu corpo e sentir a pele já pode despertar o desejo responsivo”. As possibilidades são inúmeras, mas cabe somente a você saber qual a melhor maneira de se ter prazer.

“Eu já tive muito tabu quando se falava de masturbação, mas hoje eu levo como algo natural na minha vida”

Izabele Beatriz

Captura de Tela 2020-11-25 às 22.41.23.

Manual da sexualidade

Capítulo 4

Capítulo 6