Muito prazer? Como lugares com abordagens diferentes ajudam a devolver a autoestima sexual para as mulheres

Os locais que levam a satisfação sexual da mulher a sério, com a missão de empoderar e tratar os traumas que elas carregam e que refletem negativamente na saúde sexual

Mariane Araújo sofreu por anos com vaginismo. A condição é uma disfunção sexual que assombra mulheres com vida sexual ativa. Ela é caracterizada por espasmos e contrações involuntárias no canal vaginal, que causam desconforto e dor na relação sexual. 

“Eu sentia muita dor, mas achava que era assim. Não tinha acesso à informação, pois minha mãe nunca me levou ao médico. Eu descobri sozinha essa condição”, diz Mariane. Após sentir muitas dores em uma relação sexual, ela procurou ajuda especializada e foi nesse momento que sua médica fez uma análise mais profunda e indicou a fisioterapia pélvica para tratar o quadro.
 

Quando começou o tratamento, descobriu também que tinha anorgasmia, situação que dificulta ou até mesmo impede a mulher de alcançar o orgasmo. Após cinco sessões de fisioterapia pélvica e psicoterapia, ela já relata uma certa melhora: “Comecei a me despir dos tabus e a procurar o meu prazer real e quero me descobrir cada vez mais nesse tratamento”, lembra Mariane.
 

A saúde sexual e o prazer feminino são colocados em segundo plano há milênios. O corpo da mulher é visto como um objeto desde a antiga Babilônia. No século 3 a.C., a prostituição sagrada era camuflada dentro dos templos, porém as mulheres eram usadas como moeda de troca para os homens alcançarem a graça solicitada aos Deuses. 
 

Em 2016, especialistas do Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU destacaram, no Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, que “o direito à saúde sexual e reprodutiva está fundamentalmente associado aos outros direitos humanos” e ainda afirma que “todos os países têm a obrigação de garantir o acesso universal à assistência médica para todas as mulheres”. 

Com o cenário patriarcal e opressor que se arrasta por séculos, as mulheres sofreram a privação da liberdade sexual e foram doutrinadas a esquecer o prazer, pois era taxado como algo imoral. Com as revoluções feministas e o advento da internet, elas começaram a buscar e receber mais informações sobre a saúde sexual. Elas também aprenderam que não é normal sentir dor, desconforto e que poderiam alcançar o orgasmo sem sentir vergonha ou culpa. 
 

A falta de prazer é sentida, porém ocultada. É um mal a longo prazo que não se manifesta a olho nu, tampouco é notado em um exame físico de rotina. A busca pelo prazer deixou de ser apenas uma conversa com poucos detalhes entre médico e paciente e se tornou um tratamento com equipe multidisciplinar para cuidar do problema como um todo.
 

Os locais listados abaixo demonstram que existem formas diferentes de enxergar o problema, bem como tratá-lo e jamais reduzir a mulher ao seu órgão sexual. Com abordagem acolhedora, tratando-a integralmente e sempre informando a paciente claramente de todo o processo, é possível ter uma vida sexual saudável e livre de preconceitos.

Fisioterapia pélvica

A fisioterapia pélvica é uma especialidade responsável por fortalecer o assoalho pélvico, que consiste em um conjunto de músculos e tecidos que formam a rede de sustentação dos órgãos como o útero, bexiga e a porção final do intestino e os esfíncteres, que controlam a saída da urina e das fezes.

Um estudo realizado pela Associação Médica Brasileira em 2016, constatou que a queda dos órgãos internos localizados na pelve, chamado de prolapso, atinge 22% das mulheres na faixa de 18-83 anos, variando até 30% em mulheres na faixa etária dos 50-89 anos. A pesquisa foi feita com mais de mil mulheres através de um questionário de múltipla escolha via internet.

 

A condição causa desconforto na relação sexual, incontinência urinária, dor no baixo ventre e dificuldades para alcançar o orgasmo. Muitas mulheres sofrem por anos devido a falta de informação e vergonha de buscar ajuda especializada. A terapia tem como objetivo sanar ou minimizar os sintomas citados, trazendo qualidade de vida para as mulheres, bem como a melhora na vida sexual.

Exercícios para a pelve

Contraia os músculos que você usa para interromper o fluxo de urina. Concentre-se apenas nos músculos pélvicos. Agora, imagine que a sua vagina é um elevador e você quer subir. Cuidado para não contrair os músculos das pernas, nádegas e abdômen.

 

Prenda por pelo menos quatro segundos. Quanto mais você fizer isso, mais você "subirá". Tente segurar por até 10 segundos. Solte o ar lentamente pela boca e vá relaxando os músculos gradualmente. Repita de 10 a 20 vezes sucessivas pelo menos três vezes ao dia.

 

Você pode testar os músculos do seu assoalho pélvico com um simples teste de interromper/retomar. Quando for ao banheiro, comece a urinar e interrompa o fluxo, contraindo os músculos. Se você obtiver um controle melhor que antes, isso é um sinal de que os exercícios para o assoalho pélvico estão funcionando.

Contrações Longas

Contraia os músculos do assoalho pélvico, segure por alguns segundos e, em seguida, relaxe pelo mesmo período. Comece com cinco segundos e vá aumentando até 10 segundos com a prática.

Contrações Curtas

Contraia os músculos do assoalho pélvico por um segundo e, em seguida, relaxe.

“O olhar aberto, uma escuta qualificada para que essas pessoas se sintam cuidadas na integralidade faz total diferença no sucesso do tratamento”

Explica Mônica Lopes

Mônica Lopes, especialista em fisioterapia pélvica, sexóloga e membro da Sociedade Internacional de Medicina Sexual, explica que a prática da fisioterapia é importante para se autoconhecer e desmistificar a perpetuação da robotização do corpo feminino. “A função da fisioterapia é reabilitar funções e a parte sexual está interligada com a pelve indo muito além do exercício. Precisamos entender que a reconexão com o prazer envolve toque, amor próprio e desconstrução do patriarcado sobre o corpo da mulher”, afirma.

De acordo com uma pesquisa feita pela PROSEX, metade das brasileiras não tem orgasmos nas relações sexuais. Foram ouvidas mais de 3.000 brasileiras com idades entre 18 e 70 anos.

 

No estudo, os principais apontamentos foram: 55,6% tem dificuldade de chegar ao orgasmo; 67% responderam que têm dificuldades para se excitar; e 59% sentem dor na relação.

 

Mônica também comenta que recebe pacientes de diversos locais em sua clínica no Rio de Janeiro que relatam dor, repreensão por parte do parceiro quando tentam buscar tratamento e a presença de disfunções ligadas a aspectos psicológicos por conta de algum trauma vivenciado pela mulher. “Elas chegam com vergonha, desinformação e quando começam a ver os resultados do tratamento, a melhora na qualidade de vida é quase palpável”.

Quando Mariane começou o tratamento, diz que saiu confusa e triste, pois não entendia como havia chegado naquele ponto “Eu gosto de ler e me informar, mas senti que falhei nessa parte, pois achava que era normal sentir essa dor e não ter o prazer em todas as relações”, lembra. A fisioterapeuta explica que as funções sexuais fazem parte de um contexto e é necessário entender que o prazer é um fator biopsicossocial. “O orgasmo não é uma obrigação e sim um direito adquirido. Tratar o órgão reprodutor feminino isoladamente é negligenciar o todo”, explica.

Os sex shops na reinvenção do prazer

Os sex shops estão cada vez mais presentes na rotina das mulheres. De acordo com o dados da Associação Brasileira das Empresas de Mercado Erótico (ABEME), elas são responsáveis por 70% das vendas em todo o Brasil. Somente no período da quarentena, imposta para tentar conter a covid-19, o mercado erótico cresceu 33%. As informações também apontam que as mulheres na faixa de 18 a 50 anos são as principais consumidoras de produtos eróticos atualmente.

Mas ainda existe uma grande parcela da população que nunca teve contato com os famosos sex toys. Os profissionais donos dos sex shops afirmam que, com uma abordagem mais leve e aberta, a chance de virarem novos clientes cresce gradativamente. Isso demonstra a importância de falar sobre o tema, cativar a mulher para conhecer o próprio corpo e desmistificar o tabu em torno do auto prazer.

Pamella Soares é uma jovem de 26 anos, mora em Brasília e não se conformava com o formato frio e impessoal dos atendimentos da sex shop na qual trabalhava. “As pessoas entravam na loja com um olhar desconfiado e se sentiam julgadas. Quando eu começava a conversar de uma forma mais natural, elas perdiam a vergonha”, conta. 

Quando percebeu essa carência de informação das clientes, Pamella decidiu criar um perfil na internet, no qual relatava de forma anônima, os acontecimentos durante o expediente. A cada dia, a conta ganhava mais seguidores(as) e ela começou a receber perguntas sobre os produtos  dos quais comentava. Foi quando se deu conta de que existia um nicho a ser explorado. “Muita gente se sentia confortável em falar comigo sobre os produtos, foi aí que percebi que tinha algo a mais para explorar”, explica. 

Após a saída da empresa na qual trabalhava em 2017, ela idealizou um carrinho de compras com alguns itens eróticos e brincou com um trocadilho relacionando os food trucks que estavam em alta na época. “Como existiam muitos food trucks, acabou surgindo a ideia do foda truck. Com o orçamento apertado, coloquei os produtos em um carrinho e fui vender nas ruas e eventos da cidade”, comenta. 
 

As vendas começaram a aumentar e ela decidiu chamar uma amiga para ajudá-la no atendimento e planejamento. “Com a abordagem mais simples e sem frescura, vimos as pessoas se identificarem e se aproximarem mais para comprar os brinquedos sexuais sem medo de serem julgadas”, pondera. 

Amanda Silva, sua parceira de negócios, explica que a curadoria dos produtos e como eles são apresentados nos canais de comunicação do Foda Truck faz toda a diferença: “Temos o cuidado de apresentar os produtos de uma forma leve, sem ter o formato escroto das sex shops que só objetificam as partes íntimas. Nossas campanhas são para divertir, trazer informação e levar o prazer sem o peso do tabu”.

Pamella comenta que também sentiu as vendas aumentarem no período de quarentena e recebeu questionamentos diversos -  desde indicação de produtos, até desabafos de clientes que não tinham o hábito de se tocar. “Com a pandemia, a procura pelos vibradores aumentou e o pessoal que tinha vergonha de usar, acabou procurando esses itens para extravasar”, comenta.

Larissa Alves é estudante de medicina e na quarentena sentiu a necessidade de buscar novas possibilidades para alcançar o prazer, porém explica que em casa o tema não é muito bem aceito “Acabei comprando um vibrador escondido da minha mãe para poder me divertir sozinha, pois a pandemia está dificultando os encontros e não posso arriscar. Aqui em casa não falamos sobre sexo e muito menos masturbação e isso me frustra, pois é algo natural!”, comenta. Ela também fala como a mudança da rotina impactou na sua vida: “com a correria dos estudos e a mente muito ocupada, eu sinto falta do sexo e da masturbação a dois, porque fico mais relaxada e me ajuda até a pensar melhor”, explica.

Diante desses casos, Dhyan explica que são recorrentes as mulheres que chegam relatando abusos que sofreram por anos e não conseguem ter orgasmos “Elas chegam frágeis, com o psicológico abalado, trazendo uma frustração interna, se sentindo culpadas e isso gera um bloqueio interno”. Ele também comenta que todos os procedimentos são feitos com seriedade, embasados em estudos “Desmistificar que o terapeuta tântrico é promíscuo e reconhecer na prática o quanto a saúde sexual impacta em todas as esferas na vida da mulher é fundamental para alcançar o prazer e a cura”. 

Na condição de deixar a paciente no anonimato, Dhyan relata um atendimento que o marcou, pois demonstrou que as dificuldades sexuais não têm cor ou classe social e muitas vezes os traumas são causados dentro de casa. “Ela era advogada, bem resolvida, porém não conseguia ter prazer na relação sexual por ter sofrido abuso de um tio durante oito anos. Somente após oito sessões que consegui destravar esse bloqueio causado pelo abuso”, relembra. 

“Entrar em contato e sintonia com o próprio corpo, quebrar tabus sobre a sexualidade feminina e reconhecer o poder do toque permite entender que isso melhora a qualidade de vida e com certeza tem um papel crucial na formação do poder sobre si mesmo, proporcionando uma experiência libertadora no campo a saúde mental e do prazer”, conclui Dhyan.

Capítulo 5

De acordo com a Associação Brasileira do Mercado Erótico e Sensual, a venda de produtos eróticos movimenta em torno de um bilhão de reais por ano.

Durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, uma pesquisa foi encomendada pelo site Mercado Erótico e os lojistas relataram que as vendas via e-commerce duplicaram somente durante a quarentena. A ABEME (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual), registrou a venda de um milhão de vibradores somente no período de março a agosto de 2020.

Sex shop: Influência positiva com novas abordagensSe toca
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Filosofia Tântrica e suas vertentes

A filosofia Tantra tem seus primeiros registros datados por volta do século XV na Índia. Os adeptos valorizavam a mulher como personagem divina, por dar vida a outros seres humanos e alimentá-los em seu seio. Isso era visto como um milagre pelos homens que não conseguiam desenvolver o entendimento necessário diante da geração de outra vida. 

Atráves das práticas tântricas, era a mulher que estimulava o poder interno do homem por meio do sexo sacralizado, sendo endeusada até hoje dentro das práticas tântricas. 

O Tantra sofreu algumas modificações desde sua criação, denominados Pré-Clássico, Clássico, Medieval (do qual surgiu praticamente toda a literatura utilizada até os dias atuais) e o Tantra Contemporâneo. 

Conforme as adaptações foram acontecendo, outras vertentes nos tratamentos dentro da filosofia foram aprimorados. O Terapeuta tântrico, Dhyan Darsho, explica que existem três conceitos que são trabalhados atualmente:
 

1. Massagem tântrica: Conjunto de técnicas manuais que visam estimular os pontos sensíveis do corpo para alcançar o clímax;

2. Terapia tântrica: Massagem tântrica, aliada com técnicas de respiração, meditações ativas e outras técnicas de catarse como grito primal e exercícios de yoga;

3. Psicoterapia tântrica: Todos os componentes anteriores, mais as técnicas de psicoterapia praticadas por um psicólogo tradicional.
 

Dhyan também explica que existem diversos tipos de massagem que trabalham pontos diferentes, se concentrando nos estímulos criados pelo toque, cheiro e permitindo a quebra de paradigmas de que o orgasmo está circunscrito à região genital apenas. “O resultado é a descoberta de que o seu corpo todo é prazeroso e pode vibrar intensamente de prazer, trazendo uma sensação revigorante”, explica.
 

O terapeuta comenta que a mente controla tudo e ela precisa estar aberta, livre de opressões e preconceitos sociais, históricos e religiosos para conseguir buscar maior entendimento e conhecimento corporal e, consequentemente, mais prazer.

Ele também conta que recebe pacientes que jamais olharam para seus órgãos genitais. “Vemos na clínica mulheres que sequer olharam para sua vagina ou se tocaram com uma frequência sadia”.

“A mulher sofre o estigma de passivo sexual desde a mais tenra idade e é formatada a não se tocar, não se autoconhecer, não se masturbar”

Conta Dhyan

Capítulo 1